“A Menina e a Mãe”

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“A mãe estava sentada numa cadeira da sala. As cortinas embaciavam a claridade que entrava pela janela. Era de manhã. Havia o calor morno de torradas e de chá de camomila. A menina entrou na sala e correu para a mãe. Não corras. Tem calma. A mãe sorria. Ergueu a sua mão do colo e pousou-a muito devagar no rosto da menina, na pele do rosto da menina, nos seus cabelos. Os olhos da mãe era grandes e castanhos. A menina sabia que tudo o que alguma vez pudesse precisar estava ali naquelas mãos e naqueles olhos. A menina sorria. A mãe. Havia uma alegria iluminada pela claridade que as cortinas da sala embaciavam.

A mãe estava sentada na primeira fila da igreja. A voz do padre atravessava o ar até aos cantos mais frescos, até as sombras. A menina estava sentada junto das outras meninas. O vestido branco desenhava as formas de um corpo sem formas: o peito de criança, os braços finos, a barriga, as pernas finas. Os sapatos brancos. As meias brancas com folhos no tornozelo. As meninas, com uma vela entre as duas mãos, fizeram uma fila diante do altar. A menina, entre as outras, olhava para a mãe. Com um movimento muito brando da cabeça e do olhar, a mãe aprovou cada movimento e cada acção. E tudo o que a menina queria era essa aprovação a mostrar-lhe que tudo estava bem, esse movimento muito brando da cabeça e do olhar. Seguiu na fila, com os sapatos novos e brandos sobre o mármore, com as mãos juntas a segurar a vela diante do vestido e fechou os olhos devagar, a pele serena do rosto, quando o padre lhe estendeu a hóstia da primeira comunhão e disse corpo de Cristo.

A mãe estava sentada numa cadeira do quarto. Os seus dedos eram rápidos e, ao mesmo tempo, elegantes. Os seus lábios eram tranquilos enquanto se moviam. A menina estava sentada na cama. Os lençóis estavam dobrados sobre a cintura, as almofadas estavam amontoadas sob as costas. A menina estava doente e a mãe contava-lhe histórias do tamanho da tarde. Depois, depois, depois. A palavra “depois” fazia as histórias evoluírem e separava os episódios que as constituíam. Às vezes, a mãe parava as palavras da história e fixava a atenção na renda, na linha branca, nas agulhas, nos dedos. A menina perguntava: e depois? A mãe respondia: depois… No momento em que dizia “depois”, pensava no que iria dizer a seguir, e a história continuava. A menina estava doente, a temperatura no termómetro que a mãe lhe punha debaixo do braço indicava que estava doente, mas o seu sorriso era grande. A mãe fazia renda e contava histórias. A tarde pousava devagar sobre o tapete do quarto, sobre a colcha da cama, sobre a cómoda, porque também a tarde queria estar com a mãe e com a menina a ouvir aquelas histórias grandes e bonitas.

A mãe estava sentada na primeira fila da igreja. O pai trazia a menina pelo braço. A menina era já uma mulher. O seu olhar, no entanto, era ainda o mesmo, o embaraço dos seus gestos era ainda o mesmo. O vestido de noiva brilhava. Avançava lentamente. As pessoas viravam os corpos nos bancos para olharem para trás e verem a noiva. Os homens tinham fatos e gravatas. As mulheres tinham vestidos novos. A menina era já uma mulher, e avançava devagar pela igreja, quase suspensa, avançava devagar pela igreja. As flores que segurava na mão eram um jardim e um rio. A mãe olhava-a e conhecia tudo, sabia que a menina estava nervosa, sabia que a menina tinha medo. A mãe conhecia tudo, porque sabia sentir exactamente aquilo que a menina sentia. A menina olhou para a mãe e soube do seu olhar que a mãe conhecia exactamente o que estava dentro dela. A menina era já uma mulher, e avançava devagar pela igreja.

A mãe estava sentada numa cadeira ao lado da cama da maternidade. A mala estava pousada sobre o colo. As mãos estavam pousadas sobre a mala. A menina estava sentada na cama. Os lençóis estavam dobrados sobre a cintura, as almofadas estavam amontoadas sob as costas. A menina tinha tentado pentear-se para a hora da visita, mas estava despenteada. A enfermeira entrou com a criança no colo. A menina recebeu-a nos braços e quis mostrá-la à mãe. A mãe inclinou-se para vê-la. Os seus olhos foram, ao mesmo tempo, muito novos e muito velhos, quando contiveram as lágrimas. A luz entrava pelas janelas brancas da maternidade. A menina pousou a criança nos braços da mãe. A mãe olhou-lhe o rosto, os olhos, os pequenos lábios. A mãe disse palavras inventadas que se dizem às crianças. A sua voz podia ter tremido. Os seus gestos podiam não ter sido firmes. As lágrimas podiam ter-lhe descido pelo rosto. Mas a mãe apenas sorriu e olhou para a criança pequena, apenas falou com ela, apenas a sentiu nos seus braços. Mas a menina soube que, dentro da mãe, era de novo o tempo inicial da felicidade, porque a menina era já uma mulher e, também ela, conhecia tudo, porque sabia sentir exactamente aquilo que a mãe sentia.

A menina estava sentada numa cadeira ao lado do caixão. O dia nascia da noite. Vegetal, uma planta nova a rebentar a terra. O dia nascia da noite. A luz misturava-se lentamente com a escuridão. A menina estava quase sozinha, sentada ao lado do caixão. A mãe estava deitada. As pálpebras pousadas sobre os olhos. Os lábios fechados. As mãos depois da velhice, depois da idade. A mãe era agora uma menina. Tinha o vestido que a filha lhe tinha oferecido para alguma ocasião em que precisasse de uma roupa bonita e nova. Tinha o vestido que a filha tinha ido buscar ao armário quando o senhor da agência funerária perguntou: o que é que visto à senhora? A menina era agora mãe, porque dobrou o vestido e guardou-o num saco, com a roupa interior e os sapatos, porque se debruçou sobre o pescoço morto da mãe e fechou o fio de ouro que ela mais gostava e, com os dedos, ajeitou-lho sobre o peito tão frio. A menina tinha agora de ser muito forte. Estava quase sozinha, sentada ao lado do caixão. A menina sabia agora que o segredo das mães é nunca deixarem de ser meninas. Sabia que o mundo era demasiado grande e que num dos lugares do mundo estava ela, quase sozinha, sentada ao lado do caixão, a velar a menina que tinha sido, a tornar-se na mãe ainda menina que a partir daquele dia seria para sempre.”

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“Abandona os gestos desnecessários, abandona o peso e a forma do corpo, abandona o chão. Tens altura suficiente para entrar. Podes sentar-te à frente e podes levantar os braços nas descidas. Subirás devagar, aproveita para ver a paisagem. Descerás de repente, num instante de onomatopeias: zut, vrrrum. Grita. Se quiseres podes gritar. O vento gritará ao teu lado. Tens o cinto de segurança posto, já não podes voltar atrás, já não podes abandonar o ritmo a que bate o teu coração, o teu coração, o teu coração. Respira, a vida é feita de estar vivo. Não vás de olhos fechados, abre os olhos e respira, repara neste momento da tua vida: estás numa montanha-russa, mas nem estás numa montanha, nem estás na Rússia.”

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“Olha para as tuas mãos, imagina tudo aquilo que elas serão capazes de construir. O mundo espera pelo invisível que, hoje, só tu és capaz de ver. Existe música por nascer no inteiro do silêncio. O possível é o futuro do impossível.”

Amor burguês

“Havemos de engordar juntos.

Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz “cliente seguinte”, estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.

As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.

É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.

Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.

As canções e os poemas ignoram tanto acerca do amor. Como se explica, por exemplo, que não falem dos serões a ver televisão no sofá? Não há explicação. O amor também é estar no sofá, tapados pela mesma manta, a ver séries más ou filmes maus. Talvez chova lá fora, talvez faça frio, não importa. O sofá é quentinho e fica mesmo à frente de um aparelho onde passam as séries e os filmes mais parvos que já se fizeram. Daqui a pouco começam as televendas, também servem.

Havemos de engordar juntos.

Estas situações de amor tornam-se claras, quase evidentes, depois de serem perdidas. Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é atravessar sozinho os corredores do supermercado: um pão, um pacote de leite, uma embalagem de comida para aquecer no micro-ondas. Não é preciso carro ou cesto, não se justifica, carregam-se as compras nos braços. Depois, como não há vontade de voltar para a casa onde ninguém espera, procura-se durante muito tempo qualquer coisa que não se sabe o que é. Pelo caminho, vai-se comprando e chega-se à fila da caixa a equilibrar uma torre de formas aleatórias.

Quando se teve e se perdeu, a falta de amor é estar sozinho no sofá a mudar constantemente de canal, a ver cenas soltas de séries e filmes e, logo a seguir, a mudar de canal por não ter com quem comentá-las. Ou, pior ainda, é andar ao frio, atravessar a chuva, apenas porque se quer fugir daquele sofá.

E os amigos, quando sabem, não se surpreendem. Reagem como se soubessem desde sempre que tudo ia acabar assim. Ofendem a nossa memória.

Nós acreditávamos.

Havemos de engordar juntos, esse era o nosso sonho. Há alguns anos, depois de perder um sonho assim, pensaria que me restava continuar magro. Agora, neste tempo, acredito que me resta engordar sozinho.”

José Luís Peixoto, in revista Visão (Janeiro, 2012)