A complexa gestão das amizades

“Os amigos fazem-nos bem. Mesmo que à distância, fazem-nos bem. O simples facto de sabermos que há amizades que resistem às barreiras espaciais e aos hiatos temporais reconforta-nos o espírito. Queremos, por isso, preservar essas amizades, dedicar-lhes tempo e mantê-las tão próximas quanto possível. Geri-las é um desafio que se impõe.

Todos temos amigos, sejam dos tempos da escola primária, do secundário, da licenciatura, do mestrado, de outras faculdades, da rua, do café, do desporto ou de outras actividades e andanças. Estar com todos eles exige uma ginástica considerável. Temos, inevitavelmente, de medir o custo de oportunidade e fazer as nossas escolhas. Há épocas do ano em que passamos mais tempo com um grupo de amigos do que com outros, situação que será, naturalmente, compensada noutra altura.

Tomar café com um grupo de amigos impede-nos de ir ao cinema ou beber uns copos com outro grupo, assim existam essas oportunidades simultâneas. Fora isto, ainda há que contar com os compromissos inerentes à família, ao estudo e/ou ao trabalho. É uma ciência combinatória complexa para quem tem pouco tempo livre, mas que gosta de estar em constante contacto com os amigos. O equilíbrio entre a atenção e a compreensão é fundamental e, tal como gostamos de estar satisfeitos com os nossos amigos, também desejamos que eles estejam satisfeitos connosco, numa espécie de relação simbiótica.

Não raras são as vezes em que queremos estar com todos os nossos amigos sem poder estar com nenhum. E mesmo quando podemos, é quase impossível juntá-los a todos num jantar ou convívio, devido aos compromissos de cada um ou por haver incompatibilidades entre eles. Com efeito, é um aborrecimento haver zangas e discussões entre amigos por motivos quase insignificantes e facilmente ultrapassáveis. Mais difícil de aceitar e perceber é quando essas zangas não são resolvidas e se tornam definitivas. Com uma boa conversa e com um momento de razão depois da emoção, todas essas “tempestades em copos de água” deveriam ser sanadas. A não ser que o motivo seja demasiado grave, não vejo razões para que bons amigos se zanguem, se desinteressem, se afastem e se esqueçam.

Por vezes, quando o mais miudinho dos obstáculos parece capaz de incendiar ou apagar as memórias de uma amizade de anos, é necessária a intervenção de um mediador, juiz ou apaga-fogos, para evitar males maiores. Há que manter o interesse mútuo para cimentar uma boa amizade, porque bons amigos são aqueles que podemos estar sem ver durante meses ou anos, por exemplo, sabendo que o reencontro vai ser uma festa desmesurada e que a conversa consequente vai ser uma agradável e plena cavaqueira.

Se os nossos círculos de amizade coexistissem todos em harmonia seria bem mais fácil de os gerir. Mas também podia ser muito menos desafiante e recompensador. É como é.”

A portuguesa saudade

“A saudade é dos portugueses. Palavra de presença constante na poesia de língua portuguesa, no fado, no coração de todo e qualquer português apaixonado ou perdido por esse mundo fora. Saudade. O vazio provocado pela ausência do que traz boas recordações. Sobretudo pessoas que partiram sem regresso, longe mas tão perto, algures perdidas por aí.

Acaba por ser bom sentir saudades. Sinal de que existem boas recordações, graciosidade de momentos encarados nas voltas da montanha russa, de braços bem no ar, festejados em todos os segundos de felicidade. No regresso, no reencontro, nada melhor do que ouvir, e sentir, o “tive saudades tuas”. O vazio da saudade não tem substituição. Pode ser ocupado, preenchido, sem nunca ser substituído por outro qualquer momento, pessoa ou sentimento semelhante. Existe uma saudade. Aquela saudade. A que sai do peito e invade todo o corpo. Que deixa um nó na garganta, uma vontade impotente a crescer.

A saudade começou na aventura marítima dos Descobrimentos portugueses, na partida do sítio a que se chama casa, em todos os pequenos objectos e pensamentos que fazem viajar no tempo. Prolongou-se na escrita dos poetas de amores desavindos, entranhou-se na voz do triste fado lusitano. Existe mesmo sem ser possível encará-la olhos nos olhos. E é portuguesa porque mais ninguém a vive, sente, explica e transmite como o povo do “pedacinho de terra à beira mar plantado”.

Só existem saudades dos bons momentos e de conhecer as pessoas certas nos lugares caminhados. A saudade é vontade de repetir, o querer ter e não poder, o desejar sem concretizar. A saudade consome mas não mata, faz lutar mesmo que a tristeza permaneça. É um querer voltar sem remédio.

Nada melhor do que aproveitar os pulos do coração, as corridas da respiração, o transcendente que nasce de cada passagem. Que se acredite no impossível, no sonho por realizar, na aventura louca e infantil, na experiência por conquistar dos beijos que ainda se aprende a dar. Um a um, trocados e saboreados lentamente, com a calma do sol que se põe no horizonte. Tudo o resto é saudade. Que se mata, morre e renasce.”

Não te esqueças

“Saber que se caiu no esquecimento de alguém deve ser das coisas mais tristes que podemos experimentar e sentir. É como se não tivéssemos existido.

O cérebro humano é capaz de armazenar milhares de memórias que englobam gestos indispensáveis ao dia-a-dia, lembranças de caras e lugares, palavras, coordenadas, isto num aparente caos de sinapses e electricidade mas onde tudo tem o seu lugar e onde parece caber sempre mais qualquer coisa. Perante isto, saber que se caiu no esquecimento de alguém deve ser das coisas mais tristes que podemos experimentar e sentir. A irrelevância perante a memória do outro, a noção de que não marcámos, que nada mudámos. É como se não tivéssemos existido.

“Não te esqueças de mim” é uma das expressões mais carregadas de significado que conheço. Está para mim a par dum “tenho saudades tuas” ou um “amo-te”, talvez, porque consegue encerrar em si tanto de tudo do que as outras expressões são. Não é a qualquer um que pedimos para não ser esquecidos, por norma, só o pedimos a dois tipos de pessoas: às que amamos muito e às que detestamos muito. Às primeiras, as amadas, pedimos para ser lembrados pois em nós, já sabemos que elas vão existir para sempre, independentemente dos anos, da distância, da inevitável perda física. Às que odiamos muito até podemos nem pedir para ser não sermos esquecidos mas estamos certos de que se elas se esquecerem de nós, perdemos o objecto do ódio e depois? Valerá mesmo a pena odiar sozinho quem nem se lembra de nós? Perda de tempo, ocupação desnecessária de gavetas que podiam estar encravadas com memórias boas.

(…)

O ser humano tem destas coisas, na hora de esquecer agarra-se ao mau, às lágrimas, às discussões, alimenta ódios e raivas ignorando por completo que a melhor maneira de se superar algo (um amor, uma morte, etc.) é deixar que as memórias boas se instalem, ocupem lugar, curem, libertem.

A memória do aroma do sabonete da mãe far-nos-á para sempre usar essa marca lá por casa. Ouvir uma música por acaso e jurar que se sentiu a presença da pessoa com quem a ouvíamos. As fotos engalanadas com sorrisos, belas paisagens ou até um postal tornam-se eternas pois materializam o que “cá dentro” aconteceu. Saramago disse e com razão que “Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsabilidade, talvez não mereçamos existir”. Sou por isso responsável pelos que faço existir em mim, simplesmente, não os esquecendo.”

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