Sobre a praxe

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“A Praxe é ingrata, ponto assente.
Não há pastilhas que atem de novo as minhas cordas vocais.
Não há água que reponha o que camisa absorveu ao longo de um dia.
Não há gelo que acalme a dor nas plantas dos pés, que aguentaram o peso, de sol nascer a sol pôr.
Não há alimento que encha o estômago, negligenciado a troco de mais um jogo.
Não há Santa Paciência que beatifique as barbaridades que oiço, mesmo nas perguntas mais simples.
Não há almofada que passe mais tempo encostada à cara do que a minha própria capa.
Fiz noitadas, preparei equipas, equipamentos, o traje, trajes, figurinos e adereços, músicas, gritos, pinturas, a mente, o corpo. Dispendi sono, calorias, muitas calorias, voz, tempo, amigos, criatividade e imaginação, sola, mais calorias, saúde, dinheiro, interesses pessoais, férias.
Mas há algo que paga tudo isto.
Os primeiros sinais são simples. O sorriso cúmplice quando as flexões se tornam insuportáveis. A reposta soprada ao ouvido, ao colega recém-chegado. As gargantas em esforço a defenderem a sua futura formação. Os castigos em comunidade, a criatividade conjunta e o espírito de família, crescendo visivelmente a olho nu por cada dia que passa. A admiração por quem deles cuida. A humildade e veracidade com que se despem de quaisquer personagens, deixam o fato em casa, e vêm ser eles, desconhecidos entre desconhecidos, únicos no meio de únicos. A chegada com um sorriso na cara, com a pele preparada para servir mais uma vez de tela, e a despedida, já sem forças no corpo, com olhos cansados de tantas memórias criadas.
Nos dias seguintes vejo uma mesa preenchida de caras limpas e esfregadas, a trocar contactos. A refeição, momento de eleição para a partilha, serve para discutir os acontecimentos recentes. O início das aulas provoca o início das conversas paralelas e da troca de apontamentos. Começam também os planos conjuntos, extracurriculares. Mas não tarda os copos são trocados por sebentas e brinda-se, em vez dos comuns clichés, aos nove e meios da pauta.
O melhor não vemos nós, já longe. O produto final.
As caras que aguentaram guaches e batons não aguentam as lágrimas, na despedida. A força ganha nas flexões serve para apertar os Amigos, no dia do até já. A voz, alimentada com hinos e cânticos, falha no derradeiro discurso. As memórias, bem estimadas e catalogadas, irrompem simultaneamente em cada rosto conhecido que se vê. O corpo, que foi emprestado para encarnar um qualquer personagem fictício, teima em não ser nosso e a querer voltar para trás. Os olhos, esses, continuam em baixo, para conter o impulso emotivo.
O vínculo de praxe, que condensa três semanas em três dias, dá o seu fruto. Muitos deles encontraram amigos para o resto da vida. Encontram família afastada e alguns conterrâneos. Encontram semelhantes. Talvez o padrinho de casamento, o companheiro artístico ou o par desportista. Alguns encontraram a mulher ou o marido. Provavelmente, já não vou saber disso.
Sei que vi muitos sapatos pretos no meu primeiro ano. Hoje, quando praxo, olho primeiro para baixo, para os meus.”

Bioquímica!

Aqui ficam três vídeos do meu primeiro ano na academia minhota, que está mesmo mesmo a dar por terminado. Ano de Caloira, de muitas mudanças, de muitas dores de cabeça, mas sem dúvida será o melhor ano passado na universidade.
A praxe foi algo que me marcou muito. Pela positiva, claro! Berra-se de corpo e alma. Ganhámos orgulho ao curso, mesmo que não seja aquele que queríamos seguir. Aprende-se a respeitar os outros, a respeitar aqueles que nos receberam e aceitaram quando não conhecíamos ninguém. Em praxe somos todos iguais, nenhum melhor que outro. Caloiro é um só e somos um grupo, uma família. É sem dúvida a melhor forma de integração, para nos adaptarmos ao verdadeiro espírito académico.
Agora esperam-me mais dois anos pela frente. Que sejam bons. Que sejam ainda melhores que este. Preciso de sorte!