Para falar sobre intimidade é necessário compreender a pessoa.

E a primeira ideia que ocorre é a de que a capacidade de intimidade começa com a boa qualidade do contacto com o nosso mundo interno, com a nossa experiência de intimidade com nós mesmos. Em paz.

Em paz com as nossas memórias e com os nossos sentimentos. Com as nossas certezas e com as nossas dúvidas, com a experiência daquilo que possuímos e com o desejo daquilo que ainda não alcançámos. Em paz com o sentimento da limitação do que conhecemos e com o desejo de descobrir aquilo que ainda não sabemos. Parece difícil, mas não é fácil.

Duas pessoas só podem construir um verdadeiro sentimento de proximidade, uma relação de intimidade, a partir da riqueza da experiência interior de cada uma, e com a clareza do que se sente e do que se é. A verdadeira intimidade acontece entre duas pessoas que vencem o medo de despir-se emocionalmente. É quando a alma fica mais nua do que o próprio corpo.

É a partir daqui que o desejo de comunicação com o outro se torna presente. Um desejo de falar e um desejo de escuta que leva à experiência de proximidade, de semelhança, de sintonia, como se escutássemos a mesma música interior. Nesta vivência da intimidade, esse outro é sentido como diferente mas ao mesmo tempo semelhante. Não se trata de dar novidades mas de comunicar e partilhar uma experiência interior. Uma boa conversa é o que há de mais erótico numa relação, pois são as palavras que mostram os poros do rosto da vida.

Se há algo divino no mundo, sem dúvida, é o momento que existe entre duas almas que anseiam para se tocar e isso só é possível quando permitimos que estas dialoguem nuas. Nuas de filtros. Nuas de rótulos. Nuas de diplomas. Nuas de julgamentos. Nuas de maquilhagem. Nuas de medos e inseguranças. Nuas de tudo. Despe tudo. Até só sobrar a deliciosa e apimentada humanidade.