Locais

Existem locais que nos limpam e nos regeneram. Existem locais que sempre nos indicaram caminhos. Nos abrem a mente. São locais que nos conhecem, onde já gritamos mágoas e agradecemos a vida.

Volta lá sempre que puderes.

Para falar sobre intimidade é necessário compreender a pessoa.

E a primeira ideia que ocorre é a de que a capacidade de intimidade começa com a boa qualidade do contacto com o nosso mundo interno, com a nossa experiência de intimidade com nós mesmos. Em paz.

Em paz com as nossas memórias e com os nossos sentimentos. Com as nossas certezas e com as nossas dúvidas, com a experiência daquilo que possuímos e com o desejo daquilo que ainda não alcançámos. Em paz com o sentimento da limitação do que conhecemos e com o desejo de descobrir aquilo que ainda não sabemos. Parece difícil, mas não é fácil.

Duas pessoas só podem construir um verdadeiro sentimento de proximidade, uma relação de intimidade, a partir da riqueza da experiência interior de cada uma, e com a clareza do que se sente e do que se é. A verdadeira intimidade acontece entre duas pessoas que vencem o medo de despir-se emocionalmente. É quando a alma fica mais nua do que o próprio corpo.

É a partir daqui que o desejo de comunicação com o outro se torna presente. Um desejo de falar e um desejo de escuta que leva à experiência de proximidade, de semelhança, de sintonia, como se escutássemos a mesma música interior. Nesta vivência da intimidade, esse outro é sentido como diferente mas ao mesmo tempo semelhante. Não se trata de dar novidades mas de comunicar e partilhar uma experiência interior. Uma boa conversa é o que há de mais erótico numa relação, pois são as palavras que mostram os poros do rosto da vida.

Se há algo divino no mundo, sem dúvida, é o momento que existe entre duas almas que anseiam para se tocar e isso só é possível quando permitimos que estas dialoguem nuas. Nuas de filtros. Nuas de rótulos. Nuas de diplomas. Nuas de julgamentos. Nuas de maquilhagem. Nuas de medos e inseguranças. Nuas de tudo. Despe tudo. Até só sobrar a deliciosa e apimentada humanidade.

As pessoas têm medo de mudar um hábito porque a mudança não oferece garantias. Para evitar desilusões escolhemos sempre as mesmas coisas. Afinal, “equipa que ganha, não se mexe”, certo? Errado! É preciso mudar para continuar a ganhar.

Existe um tempo em que é preciso esquecer os caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. O problema é que temos muito medo de arriscar uma felicidade que não é garantida. Mudar implica um desprendimento de alguma coisa e isso gera medo. Isso gera dúvidas. E as nossas dúvidas são traidoras e fazem-nos perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, pelo simples medo de arriscar. Mas vou-te dizer uma coisa, crescer significa mudar e mudar envolve riscos, uma passagem do conhecido para o desconhecido. As pessoas capazes de ir além das fronteiras do medo são mais recetivas a tudo o que as rodeia, o que propicia que se abram sempre infinitas possibilidades.

Digamos sim à vida. Inovemos nas pequenas coisas. Provemos novos sabores. Permaneçamos aventureiros. Por nenhum momento nos esqueçamos de que a vida pertence aos que investigam. Ela não pertence ao estático, ela pertence ao que flui, pertence aos que inovam. Quebrar as regras de algumas das nossas certezas não é imprudência, é LIBERDADE. Mudemos por fora. Mudemos por dentro. Não fiquemos com medo de mudar o sabor da pizza, do gelado, não fiquemos com medo de cortar o cabelo, de trocar de roupa, de mudar de cidade, de conhecer pessoas novas, de mudar a rota, de nos reinventarmos…

Só descobrimos novos caminhos quando mudamos de direção. Se queremos algo diferente, devemos estar dispostos a fazer algo diferente. A transformação requer a substituição de velhos hábitos por novos. Façamos algo novo todos os dias.

Porque é que eu deveria duvidar dos meus próprios pensamentos?

Se algo nos vem à mente, e volta, e volta… no final acaba por adquirir alguma conotação de realidade para nós. O problema é que muitas vezes isso não tem nada de real, então gera um desconforto emocional desnecessário.

A utente relata que após uma reunião, o simples comentário de um colega é capaz de a perturbar por dias: “Gostei de como te apresentaste na reunião, embora parecesses estar um pouco nervosa”. Diz que é uma pessoa nervosa, não consegue mudar isso, que sente que todo o seu esforço e dedicação tem sido inúteis. Fragilizada, diz que não é suficientemente profissional ao ponto de não transparecer para os outros as suas fraquezas. Afirma ainda que certamente não vão querer que assuma mais a representação da empresa em reuniões.

Não são os nossos pensamentos, mas sim o apego que temos a eles, que provoca sofrimento. Apegares-te a um pensamento significa acreditares que ele é verdadeiro, sem o questionar. Combater isso com inteligência é aprender a identificar os pensamentos negativos automáticos que surgem. Desta forma, podemos mais tarde questioná-los e mudá-los…

A ampliação do negativo e minimização do positivo é um deles, uma vez que a utente nem sequer reparou que o colega gostou de como ela se apresentou. Também é bastante comum o raciocínio emocional, ao acreditar que as coisas são assim porque nos sentimos assim, no entanto, nós não somos as nossas emoções, apenas as sentimos. Estamos ainda perante a adivinhação do pensamento, “certamente não vão querer que fale mais em reuniões”, no entanto, a verdade é que confiaram no seu trabalho para lhe atribuírem essa responsabilidade. Às vezes pode ser útil apenas dizer: isto é pensar demais.

Quanto mais tentamos ganhar certeza sobre o desconhecido, menos confiantes – e mais ansiosos – nos sentimos. Em vez de tentar obter uma garantia elusiva, aprende a aceitar a incerteza. Pensar demais nas decisões geralmente vem do medo de fazer algo errado, mas tudo o que podemos fazer é tomar a melhor decisão possível com as informações que possuímos no momento. Os erros são oportunidades de aprender, e não algo terrível a ser evitado a todo o custo. Aprende a dominar os teus pensamentos para recuperar o teu bem-estar. Liberta o pensamento desnecessário, chamando-o do que é. Soltar as mágoas do passado e os anseios do futuro e descansar no momento presente, compreendendo que tanto o passado como o futuro consistem apenas em pensamentos e histórias, que não existem na dimensão do agora.

Talvez estejas a pensar demais nisso.
“Os pensamentos são inofensivos, a não ser que acreditemos neles.”

10665382_727818527299954_5566185017636837218_n“Quando me amei de verdade, compreendi que em qualquer circunstância, eu estava no lugar certo, na hora certa, no momento exato. E, então, pude relaxar. Hoje sei que isso tem nome: auto-estima. Quando me amei de verdade, pude perceber que a minha angústia, o meu sofrimento emocional, não passa de um sinal de que estou a ir contra as minhas verdades. Hoje sei que isso é: autenticidade. Quando me amei de verdade, parei de desejar que a minha vida fosse diferente e comecei a ver que tudo o que acontece contribui para o meu crescimento. Hoje chamo isso de: amadurecimento. Quando me amei de verdade, comecei a perceber como é ofensivo tentar forçar alguma situação ou alguém apenas para realizar aquilo que desejo, mesmo sabendo que não é o momento ou a pessoa não está preparada, inclusive eu mesmo. Hoje sei que o nome disso é: respeito. Quando me amei de verdade, desisti de ficar a reviver o passado e de me preocupar com o futuro. Agora, mantenho-me no presente, que é onde a vida acontece. Hoje vivo um dia de cada vez. Isso é: plenitude. Quando me amei de verdade, percebi que a minha mente pode me atormentar e me decepcionar. Mas quando eu a coloco a serviço do meu coração, ela torna-se uma grande e valiosa aliada. Tudo isso é saber viver. Não devemos ter medo dos confrontos. Até os planetas chocam e do caos nascem as estrelas.”

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“Uma escolha de mudança de vida é sempre um salto no desconhecido. O desconhecido é algo que tu não conheces e sempre te causou medo. Essa é a principal razão porque insistes em não mudar e te manter assim, a tolerar o intolerável, a suportar o insuportável, nessa vidinha medíocre e sempre igual. Desculpa se estou a ser rude contigo, mas apetece-me abanar-te. Apetece-me agarrar-te pelos ombros e abanar-te todo. Por vezes, tu precisas de ser verdadeiramente abanado para tomares consciência do pouco que fazes por ti.”

Pessoas honestas: características e comportamentos

As pessoas honestas não têm em mente a necessidade de agradar a todos. Incomodam-se com a hipocrisia e, portanto, não hesitam em praticar a única linguagem que conhecem: a sinceridade. São leais e firmes nas suas convicções e, embora às vezes se sintam desconfortáveis, são hábeis em criar vínculos fortes e significativos com pessoas que valem a pena.

Muitas vezes, diz-se que todos elogiam e defendem a verdade, mas no momento em que alguém se atreve a ser honesto, acaba sempre sendo apontado e criticado. Não é fácil manter a coerência entre o que se pensa e o que se faz. Muitas vezes, sabemos o que sentimos, mas acabamos a dizer exatamente o oposto. Fazemos isso por causa das condições sociais, por medo de ferir ou atrair atenção.

É por isso que as pessoas honestas são tão valiosas. Porque nelas há uma dose de coragem e uma vontade clara de manter a coerência. Poucos valores sociais e psicológicos são tão necessários quanto a honestidade.

Seja como for, há um aspecto que é claro: estamos ante essa qualidade que sempre exigimos dos outros. Graças a isso, podemos construir relacionamentos baseados na confiança. Precisamos saber que a pessoa à nossa frente e aquela que amamos ou respeitamos como amigo ou colega de trabalho é sincera e autêntica em todos os momentos.

“A honestidade é um presente muito caro, não espere de pessoas baratas.” -Warren Buffett-

Pessoas honestas, como identificá-las? Pessoas honestas não carregam banners ou camisas com hashtags a definir o que são. Precisamos aprender a identificá-las por nós mesmos. Uma boa maneira de fazer isso é ouvir, observar, conectar-se com aqueles que nos rodeiam e, claro, ter um simples detalhe claro: a honestidade não tem justificação.

Não perdem tempo com o que não gostam

As pessoas honestas geralmente economizam tempo em muitas das suas conversas. Elas não desviam, não perdem tempo quando alguém ou alguma coisa não lhes agrada ou não se sintoniza com os seus valores. As pessoas honestas deixam claras as diferenças com assertividade e respeito para marcar distâncias. Ao fazer isso, não dão ou esperam muitas justificações. Elas sabem que não é apropriado prolongar situações que podem ser contraproducentes ao longo do tempo.

Não mentem ou toleram mentiras

As pessoas honestas, aquelas que são honestas em mente, palavra e comportamento, não toleram enganar-se a si mesmas ou enganar os outros. Elas não mentem porque isso gera uma desconfortável dissonância cognitiva que ataca a sua identidade e auto-estima.

Personalidades relaxadas, mentes calmas

As pessoas honestas são mais felizes e até desfrutam de uma saúde melhor. Ser honesto, não usar mentiras e ser genuíno consigo mesmo e com o que diz e faz, gera maior bem-estar. Esse equilíbrio interno, essa paz de espírito reverte para a saúde.

Sabem como construir relacionamentos mais significativos

A desonestidade e o facto de mostrar pouca integridade em algum momento, para este tipo de pessoa supõe um esforço excessivo. É essa dissonância cognitiva que gera tensão e desconforto. Portanto, pessoas honestas valorizam acima de tudo a capacidade de construir relacionamentos baseados na confiança, não só são mostrados em todos os momentos de uma forma autêntica, sincera e respeitosa com aqueles que os rodeiam, mas também exigem isso mesmo àqueles que fazem parte do seu dia a dia.

Algo assim faz, sem dúvida, que nem sempre eles tenham um grande número de amigos. Se têm poucos, são sempre os mais apropriados, os mais genuínos, aqueles em que é gerada uma reciprocidade contínua e satisfatória.

Para concluir, vale a pena mencionar apenas mais um aspeto: a honestidade é um princípio ético, um valor que ajuda a criar uma sociedade mais integral e saudável. No entanto, esta dimensão que todos acreditamos ter nem sempre se aplica de maneira real e respeitosa. Muitas vezes caímos em mentiras complacentes, aquelas que camuflam verdades e sentimentos. Não podemos dizer tudo o que pensamos em todos os momentos. No entanto, a sinceridade é um pilar muito importante de respeito para com os outros e para com nós mesmos.

Ame sem possuir, acompanhe sem invadir e viva sem depender

O maior sinal de amor é deixar o outro ser ele mesmo. É também uma enorme amostra de maturidade psicológica e é algo muito difícil de alcançar, já que a nossa sociedade programa-nos para a posse.

A origem da possessividade está no medo da perda

Basta apenas termos algo, apenas sentirmos que algo é nosso, que já somos tomados pelo medo de perdê-lo. E quanto mais nos apegamos a essa posse ou quanto mais amamos a pessoa, maior é esse medo.

Em muitos casos, esse medo da perda remonta a experiências passadas, especialmente à infância. As pessoas que sofreram perdas na infância ou que não receberam atenção suficiente tendem a desenvolver um apego inseguro que as leva a depender do outro ou a controlar a sua vida. Essas pessoas exigem atenção constante e não querem partilhar a pessoa especial com mais ninguém por medo que lhe “roubem” e desapareçam com ela da sua vida, o que as fará experimentar os sentimentos de desamparo que sentiam quando crianças.

No entanto, pode haver outras razões para uma pessoa desenvolver esse relacionamento possessivo. De fato, a possessividade implica sempre insegurança e baixa auto-estima. Pessoas inseguras tendem a ser mais possessivas porque têm mais medo de perder o que conquistaram porque, no fundo, acham que não merecem isso.

O problema é que essas pessoas, em vez de analisar de onde vem essa possessividade, tentam neutralizar os seus medos e inseguranças com mais controle.

A dinâmica perversa do controle

“Houve uma vez um monge seguidor de Buda. O monge costumava perambular dia e noite em busca de iluminação. Ele carregava consigo uma estátua de madeira de Buda que ele próprio esculpira e todos os dias queimava incenso em frente à estátua e adorava o Buda.

Um dia ele chegou a uma cidade tranquila e decidiu passar lá alguns dias. Ele estabeleceu-se num templo budista onde havia várias estátuas de Buda. O monge seguiu a sua rotina diária, assim também queimou incenso em frente à sua estátua no templo, mas não gostou da ideia de que o incenso que queimava pela sua estátua chegasse às outras estátuas.

Então uma ideia lhe ocorreu: ele colocou um funil na frente da sua estátua para que o cheiro do incenso só chegasse a ela. Depois de alguns dias, ele percebeu que o nariz da sua estátua estava preto e feio do fumo do incenso.”

Esta simples parábola mostra-nos o que pode acontecer quando a possessividade nos cega. Na verdade, não é difícil cair num comportamento do monge e acabar a sufocar a pessoa que amamos. No entanto, o curioso sobre o controle é que quanto mais o aplicarmos, mais controle queremos, porém mais ilusório ele se torna.

Para amar e deixar ser, é necessário mudar a nossa mentalidade

– Não confunda apego com amor. A possessividade geralmente vem da confusão: interpretamos erroneamente o nosso apego com amor. O apego é uma emoção superficial que nos une, enquanto o amor é uma emoção mais profunda que nos liberta. Amar alguém é deixá-lo ir, amarrar alguém é experimentar apego. É por isso que a possessividade é uma forma de apego que não reflete o amor, mas sim o nosso desejo e necessidade de controle.

– Deixe a necessidade de controle. A possessividade surge da insegurança, que tentamos atenuar através do controle, porque nos dá a falsa ilusão de segurança. No entanto, quando percebemos que na realidade o controle que exercemos é mínimo, porque a qualquer momento a vida pode arrebatar qualquer coisa ou qualquer pessoa, então entendemos que não faz sentido desperdiçar tanta energia inutilmente. Naquele momento, um pequeno milagre ocorre: em vez de nos esforçarmos para controlar, esforçamo-nos para desfrutar mais dessa pessoa.

– Cultive o seu “eu”. A dependência emocional do outro e o desejo de controlá-lo surgem quando sentimos que não somos capazes de satisfazer as nossas necessidades. Quando temos um “eu” amadurecido, quando confiamos nas nossas habilidades e nos conectamos com as nossas emoções, a possessividade desaparece, simplesmente porque não precisamos disso, não tem razão de ser. Portanto, para amar sem domínio ou dependência, é necessário realizar um profundo trabalho interior.

– Suponha que todos tenham o direito de ser. Nós não fazemos bem aos outros quando impomos as nossas opiniões e maneiras de fazer. Portanto, não caia no erro de tentar impor a sua maneira de ver o mundo para “ajudar” o outro. Ninguém é obrigado a atender às nossas expectativas, de modo a que o maior presente que podemos dar àqueles que amamos é deixá-los ser e aceitá-los incondicionalmente.

Por que nós caímos na dependência emocional?

Somos todos dependentes. Mesmo a partir do momento em que a nossa vida começa. Somos no ventre da nossa mãe, nos nossos primeiros gritos, nas primeiras quedas… Somos na secção prática e na secção emocional. Precisamos de outras pessoas para fazer atividades para nós, ou pelo menos nos dar algumas indicações de como fazê-las. Precisamos dos outros também porque somos seres sociais e… especialmente emocionais. Então, somos necessariamente vítimas de dependência emocional?

Os mecanismos neurológicos envolvidos nas relações amorosas

Os sentimentos amorosos utilizam as mesmas vias neurais que substâncias psicoativas, ativando os sistemas de recompensa do cérebro e criando sintomas de dependência similares. Portanto, apesar do termo “dependência” ser tradicionalmente ligado ao uso de substâncias ou drogas psicoativas, as “dependências de sentimentos” também apresentam etiologia e sintomatologia semelhante à de outras dependências. Neste sentido, a dependência emocional seria caraterizada por comportamentos aditivos que teriam como base os relacionamentos interpessoais. Desta forma, Bornstein e Cecero (2000) propõe que uma relação de dependência pode ser definida por quatro elementos: motivacional, afetivo, comportamental e cognitivo.

O componente motivacional refere-se à necessidade de suporte, orientação e aprovação. O componente afetivo está relacionado à ansiedade sentida pelo indivíduo diante de situações nas quais ele necessita agir independentemente. O componente comportamental refere-se à tendência a procurar ajuda de outros e de submissão em interações interpessoais. E o último componente, o cognitivo, remete à perceção do sujeito como impotente e ineficaz.

Vamos ver um exemplo simples. A Ana está a fazer algumas mudanças na decoração da sua casa e gostaria de trocar uma peça da mobília. Mas a peça é muito pesada para que ela carregue sozinha, então ela precisa da ajuda de alguém. Pode ser a sua própria ajuda, bastaria que para isso ela desenvolvesse uma ferramenta que a ajudasse nesse processo, no entanto, temporariamente, essa solução não é a mais indicada.

O mais indicado é que pessoas mais fortes do que ela o façam por ela. A Ana pensa nos seus filhos, mas acontece que eles não podem porque naquela semana eles estão de férias. Então ela pede ajuda aos seus sobrinhos e esses encantados fazem-lhe o favor. Bem, a Ana é dependente, mas não depende dos seus filhos. Se eles não podem, ela é capaz de procurar ajuda de outra pessoa que possa. Bem, com independência / dependência emocional, a mesma coisa acontece.

Torna-se perigoso quando se fixa numa única pessoa e que assume a responsabilidade do nosso estado emocional.

É perigoso porque nos enfraquece e porque a longo prazo acaba o relacionamento. No entanto, o pior é que, antes que a relação termine, estaremos a nos destruir ao usar todos os tipos de medidas desesperadas para não perder a pessoa em quem depositamos o destino da nossa felicidade.

Os quatro passos da dependência emocional

O caminho da destruição emocional – por dependência emocional – geralmente tem quatro etapas marcadas, as quais começam a diminuir quando o medo da perda aparece. Um medo que na maior parte do tempo é infundado e que contribui precisamente para fortalecer essa dependência.

Se não pude conseguir sentir-me querida e necessária, se te negastes a ter  pena de mim e a cuidar-me por piedade, se nem sequer consegui que me odeies, agora vais ter que notar a minha presença, queiras tu ou não, porque a partir de agora vou tratar de que me temas” 

O primeiro passo consiste, para a pessoa dependente, em tentar tornar-se essencial para a pessoa de quem depende. Ao mostrar-lhe tudo o que ela traz para a sua vida, levantando essas contribuições e enfatizando-as: “Se não fosse por mim…”, “Vamos ver quem ia fazer isso com você assim…”, “Você pode até procurar, mas jamais vai encontrar alguém que faça por você o mesmo que eu faço e como eu faço”.

Também o dependente pode tentar se tornar uma garantia, uma espécie de seguro, “se você me seguir, isso nunca te faltará” e buscarmos  o outro, mesmo que por reciprocidade, para que fique com a gente.

Nós descemos para o segundo passo quando o primeiro não funciona. Além disso, este segundo poderia ser combinado com o primeiro. Nesta etapa, o dependente disfarça-se de vítima e tenta ter a piedade do outro. Na sua vida, as doenças quotidianas tornam-se tragédias reais que tornariam o outro desumano em caso de querer fugir… Precisamente nesses momentos. Além disso, essa é geralmente uma estratégia que o dependente conhece muito bem, já que ele provavelmente a usou em alguma situação antes para reivindicar atenção.

O terceiro e quarto passos são paradigmáticos e com eles a pessoa dependente tenta se proteger do que mais teme, a indiferença. Esses dois passos são intercambiáveis ​​e não necessariamente um é dado antes do outro, ou ambos são dados.

Além disso, os dois aludem às emoções primárias: uma para odiar, outra para o medo. Em face do medo da indiferença, a pessoa dependente pode procurar ser odiada pelo outro. É uma forma de autoengano com o qual se busca sentimentos que são mantidos, laços de conexão, presença na vida do outro … mesmo que esteja criando ódio .

O quarto passo é o da ameaça. “Se acontecer de sair, eu não sei o que posso fazer”, “Se você desaparecer, eu não tenho mais razão para viver”, “Se você decidir ir embora, eu lhe asseguro que você nunca mais vai-me ver”. É o medo da perda que a pessoa dependente tenta infectar no outro. Esse medo é um engano, mas para o dependente pode funcionar perfeitamente como substituto do amor.

A pessoa dependente faz sofrer… e sofre

De uma forma ou de outra, para o dependente, a sua própria dependência costuma ser uma tortura. Se há algo em que o dependente é mesmo vítima é o do fato de ter confiado o seu destino e as suas esperanças a alguém. Isso a força a se sacrificar para que esse alguém não se vá, porque a pessoa realmente sente que, se o outro se for, ela perderá a vida. Muitas de suas frases são manipulações, mas abaixo delas há um sofrimento que é real.

Infelizmente, a dependência emocional é difícil de admitir. Rótulos como os de pouco valor, fraqueza de caráter e até mesmo incapacidade intelectual estão associados a ela. No entanto, identificar essa dependência é o primeiro passo para reconstruir e entender que, embora as nossas necessidades sejam únicas, as pessoas que podem satisfazê-las são várias e também geralmente de maneiras muito diferentes.

“Às vezes, acordamos com um vazio enorme no peito. Às vezes porque tivemos pesadelos tão absurdos, mas quando acordamos tristes ou irritados, estávamos apenas nós, no meio de muitas almofadas que disfarçam o vazio. Lutamos diariamente com intempéries desconhecidas, descobrimos que a saúde já não é a mesma, e que existem seres que dependem de nós. Temos de ser o pilar do mundo, manter-nos firmes e juviais, obedecer às regras e às normas que nos vão sendo impostas mesmo que não estejamos de acordo. A vida dá-nos muitas alegrias, mas também é bastante dura, e sinceramente não sei como conseguimos ultrapassar tanto obstáculo, tanto problema, tanto cansaço e mesmo assim conseguir tempo para um sorriso. As lágrimas essas são tão fáceis de aparecer… Aliás porque não há heróis! Há apenas seres determinados que em certas alturas precisam de um porto de abrigo que ajude a reabastecer energias e que nos encha o coração.”